Centenário de Cristo Rei: a liturgia responde aos sinais dos tempos

Foto de Diácono Guto

Diácono Guto

As motivações históricas, teológicas e litúrgicas.

Pe. Lucas Pereira dos Santos

Vice-reitor do SIDES

As motivações históricas, teológicas e litúrgicas de Pio XI

Instituída, em 1925, pelo papa Pio XI, comemoramos, neste ano, o centenário da celebração de Cristo Rei. Dois fatores históricos foram fundamentais para a instituição da festa. Um de ordem secular (o período pós Primeira Guerra Mundial marcado pelos avanços do Secularismo e do Totalitarismo) e o outro de ordem eclesial (1600 anos do Concílio de Niceia). Quanto à primeira, sobretudo na Europa, o Secularismo (com especial atuação do Liberalismo e da Maçonaria) pretendia restringir o culto cristão à esfera privada. Por outro lado, também ascendiam os regimes Totalitários: Facismo, Nazismo e Comunismo. Todos estes apresentavam um culto ao estado ou ao governante, em detrimento da transcedência divina. O reinado social e o ideal de cristandade desapareciam. Deus havia sido excluído dos espaços públicos e crescia o pensamento anticlerical, fruto do Laicismo (cf. Quas Primas, 23). Em resposta, Pio XI afirmou que a causa dos conflitos entre as nações era a não submissão da pessoa humana e das nações ao reinado de Cristo, o soberano sobre os indivíduos e os povos.
Quanto às motivações teológicas e litúrgicas, Pio XI relembrou os 1600 anos do Concílio de Niceia que “definiu e proclamou dogma de fé católica a ‘consubstancialidade’ do Unigênito de Deus com seu Pai, e, inserindo em sua fórmula de fé, ou ‘Credo’, as palavras: ‘cujo reino não terá fim — com isto mesmo afirmou a dignidade real de Cristo” (Quas Primas, 2). A data escolhida pelo papa foi o Último Domingo de Outubro, por duas razões: nesta data a maioria dos mistérios da vida de Cristo já haviam sido celebrados na liturgia e por anteceder, imediatamente, a solenidade de Todos os Santos, “antes de celebrarmos a glória de todos os Santos, a liturgia proclamará e enaltecerá a glória d’Aquele que todos os Santos e todos os eleitos triunfa” (Quas Primas, 30).

A reforma de São Paulo VI

Em 1969, com a renovação do calendário litúrgico, a pedido do Concílio Vaticano II, Paulo VI enfatizou o aspecto escatológico da solenidade, já presente com menor ênfase na intenção de Pio XI. A festa foi elevada à categoria de solenidade e a data foi transferida para o 34º Domingo do Tempo Comum. Celebrada no último Domingo do calendário litúrgico, Paulo VI quis evidenciar que Cristo é o Alfa e o Ômega da história do homem e do universo. Com o novo contexto social e a renovada autocompreensão da Igreja e sua relação com o mundo, frutos da eclesiologia do Vaticano II, a perspectiva do reinado social de Cristo foi transferida para um reino espiritual: “reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da justiça do amor e da paz” (Prefácio Jesus Cristo, Rei do Universo – MR p. 426). Não se tratava mais do resgate do modelo da cristandade, mas assegurar a liberdade religiosa da fé cristã numa sociedade cada vez mais diversificada. As leituras e orações foram revisadas para adequar-se a esta compreensão e a liturgia, novamente, respondeu aos sinais dos tempos.

A contribuição do Papa Francisco e as reflexões teológicas e pastorais recentes

Em 2016, na Carta Apostólica de conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Pobres, estabelecendo a sua celebração no 33º Domingo do Tempo Comum “como a mais digna preparação para bem viver a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo que se identificou com mais pequenos e os pobres que nos há de julgar sobre as obras de misericórdia (Misericordia et Misera, 21). Francisco adotou no Magistério ordinário as recentes reflexões sobre o múnus real de Cristo que o identificam com a caridade do Bom Pastor. Nesta compreensão, o Cristo Rei/Pastor não é confundido com o poder temporal ou político, mas com o Reino de Deus. A realeza de Cristo é paradoxal ao mundo: o poder real é traduzido como serviço e os sinais deste Reino deverão ser testemunhados na vida cotidiana com os frutos de amor, justiça e paz, que conduzem, na esperança escatológica, à plena realização do novo céu e da nova terra. Novamente, a liturgia responde aos sinais dos tempos.

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