
Fonte : Vaticano News
Antes de tudo é preciso dizer que a identidade de um pontificado é construída ao longo do seu Magistério ordinário. Porém, a análise inicial de um papado a partir do nome e do primeiro discurso e homilia, apesar de incipiente, oferece alguns indicativos.
Quarto nome mais utilizado entre os papas, Leão parece não ressoar muito bem no vocabulário popular e na sociedade atual, mas na história da Igreja é dotado de significado. A escolha de um nome indica aspirações pessoais, visão eclesial e de mundo, além de uma homenagem aos sucessores (sobretudo o último) que carregaram tal nome. Dos 13 papas com o nome de Leão, destaco o primeiro e o último antes de Leão XIV: São Leão Magno e Leão XIII.
São Leão Magno (440-461), doutor da Igreja, é recordado por acontecimentos fundamentais: o Tomus ad Flavianum (449) e a tentativa de invasão de Roma (452). A primeira, de natureza teológica, foi a primeira vez que o bispo de Roma interviu, significativamente, nas principais discussões cristológicas dos primeiros concílios ecumênicos. A carta de Leão Magno a Flaviano (Patriarca de Constantinopla) foi uma contribuição decisiva para a formulação da fé cristológica do Concílio de Calcedônia (451): o Verbo encarnado, uma única pessoa divina e duas naturezas (divina e humana), é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A intervenção da cristologia latina de Leão foi um ponto de equilíbrio entre os extremos dos pensamentos do Nestorianismo e do Monofisismo, um período conturbado de “polarização teológica”. Outro fator, de ordem histórica, é a intervenção de Leão Magno diante da tentativa de invasão de Roma pelo Rei Átila, o Huno. O papa foi ao encontro do rei para dialogar. A conquista da cidade foi cancelada. Em atitude diplomática, Leão atuou pela conservação da ordem e da paz.
Pastor para o seu tempo, na história recente da Igreja, apareceu Leão XIII (1878-1903). Na história contemporânea é o primeiro papa a ganhar destaque no diálogo com o mundo secularizado. Para isto, Leão XIII, utilizou-se de duas ferramentas: a doutrina social e o pensamento tomista. É fato que houve precedentes pontuais, mas a exposição da doutrina social de forma sistemática foi apresentada, primeiramente, por Leão XIII. Na Rerum novarum (1881), a partir do princípio da dignidade humana, o papa trouxe para a reflexão e atuação eclesiástica a questão operária, a justiça social e o direito dos trabalhadores. Novamente, um novo Leão rugiu na história opondo-se aos pensamentos mais extremos, desta vez os elementos mais radicais do Socialismo, do Comunismo e do Capitalismo. Na Aeterni Patris (1879), Leão XIII reconheceu que a formação intelectual era um incentivo para o diálogo com a modernidade: a reafirmação da conciliação entre fé e razão, a partir do pensamento tomista. Em tempos complexos da história eclesial e geral, o papa incentivou a oração do rosário para perseverança na fé, a unidade da Igreja e a paz no mundo. O pontífice escreveu diversas encíclicas sobre o tema e ficou conhecido como o “papa do rosário”. Leão XIII representou uma abertura da Igreja para o diálogo com o mundo, mas sem esquecer os pontos basilares da doutrina católica.
Qual o indicativo o cardeal Prevost pôde ter dado à Igreja e ao mundo ao escolher o nome Leão XIV? No momento oportuno será o próprio papa ou a Santa Sé a explicar. Os precedentes apresentados anteriormente confirmam características semelhantes aos “Leões”: espiritualidade, sabedoria, coragem, respostas diplomáticas em tempos de crise, porém salvaguardando o depósito da fé; proximidade do povo e apelos e gestos em favor dos pobres, da ordem social e da paz.
Norte-americano, missionário e bispo no Peru, Leão XIV, “pastor de duas pátrias”, é conhecedor da realidade latino-americana, fazendo com a prática eclesial do “fim do mundo” continue no coração da Igreja. O seu primeiro discurso apresentou uma linha de continuidade de temas fundamentais do pontificado do Papa Francisco: a paz como fruto do Ressuscitado, o diálogo para a construção de pontes, a unidade da Igreja e sua abertura missionária para todos! Agostiniano, o bispo de Roma, utilizando as palavras de Santo Agostinho indicou a necessidade de “caminhar juntos”, uma alusão à humildade no exercício do ministério ordenado, a unidade entre pastores e fiéis e um aceno à sinodalidade: “para vocês eu sou bispo, com vocês eu sou cristão”. Do ponto de vista espiritual, no dia 08 de maio comemora-se uma das duas súplicas anuais de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia (lembre-se: Leão XIII foi o “papa do rosário”) e a aparição de São Miguel Arcanjo no Monte Gargano. O seu predecessor Leão XIII, redigiu a mais famosa oração a São Miguel, na ocasião o papa quis reafirmar que na batalha ente o Bem e o mal, Deus sempre vence. Leão XIV, no primeiro discurso disse: “Deus nos quer bem, Deus ama a todos. O mal não prevalecerá”.
A sua primeira homilia, na Capela Sistina, em Missa restrita aos cardeais, Leão XIV, com um conciso e claro pensamento eclesial e do ministério petrino, aplicado aos sofrimentos do mundo presente, apresentou, novamente, um indicativo de alguns elementos do método teológico de Santo Agostinho: a relação entre fé e razão, Revelação e pensamento científico e uma teologia existencial, elaborada não a partir de conceitos abstratos, mas da experiência da vida e dos grandes dramas da humanidade.
No mundo cada vez mais polarizado, rezemos para que a voz de Leão XIV, a exemplo dos outros “Leões”, seja um rugido de esperança e de paz para todos os povos! Que Ele nos confirme na fé e guie a Igreja na unidade! E, se seguir os outros dois “Leões”, este também terá.
Pe. Lucas Pereira dos Santos
Vice-reitor do SIDES
