Por José Fernando Franco, médico e seminarista diocesano.
São Paulo afirma que quando um membro sofre, todo o corpo sofre (1Cor 12,26). De forma objetiva, reconhece-se que o sofrimento malcuidado e desamparado gera uma perda de significado que ofusca a vontade de viver. Diante dessa realidade, é urgente o cuidado e a acolhida que busca mitigar a dor e o sofrimento dos homens e mulheres que enfrentam doenças graves em fases críticas e terminais da vida e que, por vezes, são taxados de pessoas pelas quais não há mais o que se fazer. Contudo, quanto maior o sofrimento que atinge as múltiplas esferas do ser humano: física, emocional, social e espiritual, mais há o que se fazer para promover o alívio e o conforto que restauram a dignidade do indivíduo enquanto homem e mulher, protagonistas de suas existências e muito superiores a um diagnóstico médico.
Diante de tais situações de vulnerabilidade, por vezes, se questiona o valor da vida humana, chegando-se ao absurdo da aprovação no ordenamento jurídico, em várias nações, de dispositivos como a eutanásia e o suicídio assistido sob o equivocado conceito de “morte digna”. Na realidade, porém, o que percebemos é a triste cultura da morte ou cultura do descarte tão denunciada no magistério recente dos papas, com destaque para os papas São João Paulo II e Francisco. “De fato, cada progresso nas habilidades dos profissionais de saúde requer uma crescente e sábia capacidade de discernimento moral, ou seja, de progresso na formação ética do homem, para evitar a utilização desproporcional e desumanizante das tecnologias, sobretudo nas fases críticas ou terminais da vida humana” [1].
O conceito de “morte digna” como subsídio que admite violações da vida evidencia uma perspectiva utilitarista que é ligada a possibilidades econômicas, beleza e “bem-estar” em detrimento de dimensões sociais, espirituais e religiosas da existência. Deste modo, a vida só é considerada digna se condicionada a um nível de qualidade, ou seja, caso tenha a mínima aparência de miséria, não merece ser continuada e assim não se reconhece mais que a vida humana tem valor em si mesma [1].
Todo ser humano tem um valor único e irrepetível da mesma forma que o sofrimento também é único em cada homem e mulher, apesar de, por vezes, apresentarem o mesmo diagnóstico ou a mesma condição de terminalidade. O cuidado com a vida é, deste modo, a primeira responsabilidade daqueles que tem a experiência do encontro com o doente; a saber: família, profissionais de saúde, agentes de pastoral e toda a sociedade. Mesmo quando a cura é impossível ou improvável, o acompanhamento médico, psicológico e espiritual é um dever imprescindível, já que o contrário configuraria desumano abandono do doente [1]. Nem sempre, há meios que promovam a cura, mas o cuidado é sempre necessário.
A superação da visão utilitarista e individualista que chama de direito a escolha pela morte na eutanásia e no suicídio assistido se dá pela compaixão; porque é feliz quem tem compaixão ao ponto de chorar com os outros (Mt 5,4). Nesta dimensão relacional do amor, o sofrimento enche-se de significado no “com-partilhamento” da condição humana, que entende a morte como processo natural, no qual todos os homens e mulheres estarão sujeitos e isso os fazem solidários no caminho para Deus, que exprime aquela aliança radical entre as pessoas. Essa aliança é luz para compreender o homem como criatura finita, porém destinada à eternidade [1].
[1] Congregação para a Doutrina da Fé. Carta Samaritanus Bonus (14 de julho de 2020)

José Fernando Franco, médico e seminarista diocesano.